Coligações
- Marcus Tavares

- 21 de ago. de 2018
- 4 min de leitura


Parte de nosso projeto sempre contou com colaboradores de todas as áreas,fotógrafos,modelos,estilistas,maquiadores,no entanto nessa coluna que hoje estréia contaremos com uma colaboração narrativa ,que aborda gênero, Sergio Viula filósofo mestrado em linguística,que atua como professor e criador do blog Fora do Armário (foradoarmario.net) que aborda principalmente assuntos ligados a comunidade LGBT+,e o ilustre colaborador estreante.
Moda e identidade – nada de concreto e definitivo na relação das duas
Por Sergio Viula
A moda é onipresente, mas o próprio termo indica construção e desconstrução, uma vez que a palavra moda vem do latim “modus”, que significa costume. E se é costume, dá e passa (risos). Tanto assim que foi costume (moda) até recentemente que só os homens usassem calças e só as mulheres usassem vestidos. Quem rompia com esse hábito, ainda que pontual e excepcionalmente, acabava execrado publicamente. Felizmente, isso mudou e outras mudanças já se encontram em andamento.
Não é difícil perceber que moda e identidade dialogam. Tanto assim que a moda serve como distintivo entre tribos, tais como os clubbers, os punks, os góticos e muitos outros. A produção visual dá visibilidade a identidades que não seriam imediatamente reconhecidas sem ela. Refletidamente ou não, por meio da moda, o indivíduo revela sua classe social, regionalidade, etnia, filiação religiosa (ou falta dela), entre muitas outras características pessoais ou de pertença.
A indumentária diz muito sobre quem a usa. Seu poder é tamanho que sacerdotes de quaisquer segmentos religiosos vestem-se de modos geralmente exóticos a fim de provocar um imediato sentimento de reverência por parte do outro – no caso, o leigo – ou de reconhecimento, inclusive hierárquico, por parte de outros clérigos do seu círculo. Nesse sentido, a religião e o militarismo funcionam de maneiras muito semelhantes. O uniforme é a moda ditada pelas instituições caracterizadas por hierarquia e comando e servem para manter as estruturas de poder.
Refletidamente ou não, vestimos aquilo que acreditamos ser a melhor maneira de nos traduzirmos ao olhar alheio. E quem deseja intensamente agir na contramão do trânsito usual, mas não o faz, acaba vivendo em ressentimento ou recalque – o que não faz bem à saúde de ninguém.

O poder da androginia
Um exemplo do que significa agir na contramão do hábito é a moda conhecida como andrógina. Esta é principalmente, mas não exclusivamente, praticada por pessoas de gênero não-binário.
Por andrógina, refiro-me àquela composição indumentária que mistura masculino e feminino de tal modo que passa a ser difícil identificar o indivíduo imediatamente como uma coisa ou outra. Essa moda que desafia a normatividade de gênero mexe tanto com as pessoas que muitos dos que ousam misturar as fronteiras acabam sofrendo discriminações e até violência física. Isso se dá porque muitas pessoas ainda são incapazes de perceber que as noções de gênero não são sagradas ou imutáveis. Elas são construções irrefletidamente (ou não) repetidas por indivíduos dentro de um grupo cujos membros são submetidos às mesmas restrições logo que nascem. Aliás, o enxoval (a roupa e acessórios que acompanham os ditames da moda para bebês) já está pronto antes mesmo que o filhote humano seja exposto à luz do dia e geralmente impõe padrões de gênero sobre ele.
Felizmente, os grandes estilistas investem muito na desconstrução desses ‘dogmas’, embaralhando as noções de masculino e feminino e incentivando mudanças na mentalidade das pessoas que constituem o seleto círculo de seus consumidores – aqueles que podem pagar por peças de alta costura.
Com menos cacife do que os clientes dos grandes estilistas, mas ainda deslumbrados com o mundo da alta costura, muitos aderem ao prêt-à-porter exposto nas lojas de grandes marcas em shopping centers, mas como as grandes marcas ainda são inacessíveis para a maioria dos consumidores, muitos deles se rendem à maciça produção em série das indústrias chinesas, que fabricam roupas mais baratas que um refrigerante, vendidas em stands espalhados pelas áreas mais populares das grandes cidades – o que não impede que mesmo os mais pobres combinem roupas e acessórios de modos inovadores.

Mas de onde vem a hetero-cisnormatividade na moda?
A moda se constitui no seio das sociedades, cristalizando-se temporariamente como parte do que chamamos de cultura. A nossa, por exemplo, ainda é muito influenciada pelo patriarcalismo machista típico do pensamento judaico-cristão-muçulmano que vem sendo desafiado há muito tempo.
Grande parte dessa contestação vem da moda, que tem seus próprios códigos semânticos, baseados em símbolos, que podem colaborar para manter ou para transformar nosso ‘modus’ de vestir (e de viver), à medida que reflete nossas identidades, as quais também são produzidas por meio de complexos processos de (auto)subjetivação que nunca dispensam o dialogismo característico de nossas interações discursivas. Ninguém é uma ilha.
São essas dinâmicas que produzem e dão visibilidade ou invisibilidade a aspectos da nossa personalidade que podem estar coadunados ou não com o status quo.
Já devíamos ter nos libertado de ideias obsoletas como ‘isso é coisa de homem’ e ‘aquilo é coisa de mulher’, ou ‘isso é coisa de macho’ e ‘aquilo é coisa de viado’, ou ‘isso é coisa de mulher direita’ e ‘aquilo é coisa de puta’.





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